Sete Contos Capitais – INVEJA

CONTOS CAPITAIS

 

“A inveja é o mais estúpidos dos vícios, pois deste não se obtém nenhuma vantagem.” (Balzac)

 

 

 

Inveja

Era um daqueles dias que não se tem nada a fazer, ou pelo menos não se quer fazer nada além de curtir o ócio.

Olhava pela janela  como quem não pensa em nada, quando ela se aproximou.

Acho que já a conhecia de vista, mas nunca tive um relacionamento mais próximo.

Na primeira abertura que dei, despejou incontrolavelmente suas opiniões e julgamentos.

Quis mudar de assunto, mas acabei cedendo aos seus.

A princípio achei exagerado o que falava ao pé do meu ouvido, de forma quase confessional.

Depois notei que havia razões que mereciam respeito em sua atitude verborrágica.

A vizinha da frente – dizia ela – que sempre pareceu ser moça direita,

destas que vem do interior, mas não se deixa influenciar pelos hábitos libertinos das grandes cidades, esta mais “cheinha”, aparenta grávida.

De quem? Era tão religiosa e seguia os preceitos sacramentais tão ortodoxamente.  Respondeu de forma tão ríspida a cantada que dei quando se mudou, e agora me aparece grávida?!  Foram alguns de meus pensamentos, mas não quis dar continuidade ao assunto.

O carro estacionado na vaga do vizinho a esquerda,  apontado por ela de forma bem discreta, parecia valer pelo menos o meu salário de dez anos consecutivos.

É daquele jovem que nunca vi sair para trabalhar, sempre está rodeado de amigos com corpos torneados na academia e belas jovens que se dizem universitárias, mas que nunca se viu acompanhada de um livro sequer –  afirmava num tom de desconfiança.

Minha mente se inquietou. Seria dinheiro de droga ou prostituição?

Trabalho quarenta horas semanais, curso superior, MBA, experiência e qualificação de sobra.

Nunca pude me dar ao luxo de comprar um carro que passasse da categoria popular.

Olhei o carro na garagem com um nó na garganta.

Ao menos não fiz nada de errado para conseguir o pouco que tinha conquistado na vida.

Injustiça – dizia ela – olha o quanto você trabalha, o quanto é qualificado… e daí por diante, tecendo um rosário de elogios que acabaram me deixando para baixo.

Realmente era injustiça, consequências de um país desigual e mal governado.

Neste ponto da conversa percebi o quão fundamentados eram seus argumentos.

Também não tinha tempo de ter um corpo tão torneado. EU TRABALHAVA DIGNAMENTE!!!

Era uma afirmativa do meu pensamento que dava um bom desconto ao meu aparente desleixo corporal.

Quisera nós termos tempo para dedicar as aparências – afirmava ela, agora como se fôssemos um, e partilhássemos das mesmas alegrias e mazelas da vida.

Não poderia deixar de concordar com isso. Se tivesse mais tempo para cuidar do corpo, talvez a vizinha agora estaria grávida de mim.

Grávida não. Isto nem pensar – afirmamos juntos – Não se coloca um filho no mundo sem planejamento, sem estrutura. Acabei sorrindo ironicamente por dentro, pensando que agora ela pagaria pelo desprezo que me deu.

O papo foi durando e acabei convidando-a  para entrar e tomar um café.

Depois da despedida, até cheguei a pensar que não era uma boa companhia, mas tinha razões fortes em seus pensamentos.

Acabou me visitando algumas vezes mais. Foi se tornando uma amizade, depois um relacionamento de cumplicidade, de partilha e hoje dificilmente nos separamos.

Pensamos e agimos de forma tão unívoca que as vezes não sei se realmente um dia ela chegou, entrou, tomamos café, conversamos sobre todos…, ou se sempre esteve comigo.

São nos poucos momentos de lucidez que consigo fazer uma separação entre mim e ela. Momentos cada vez mais escassos em minha vida.

No mais, estamos sempre juntos, como” unha e carne”, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

Desculpamos nossos erros, falhas e fraquezas vendo que os outros são piores. Somos vítimas de um mundo cruel. Eu e ela, minha amada INVEJA.

1 Comentário

  1. Elaine

    O número dos que nos invejam confirma as nossas capacidades.
    Oscar Wilde

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