Sete Contos Capitais – IRA

CONTOS CAPITAIS

Significado de Ira

s.f. Raiva; sentimento intenso e permanente de ódio, mágoa e rancor que, normalmente contra uma ou algumas pessoas, é gerado por uma ofensa, dando origem a uma situação agressiva.(Fonte: Dicio – Dicionário Online de Português)

Evite a ira e rejeite a fúria;
não se irrite: isso só leva ao mal. Salmo 37: 8

 

Ira

Naquele dia completavam exatamente três meses de um namoro que no mínimo poderia ser cunhado como avassalador.

Se conheceram nos acasos da vida. Ela discutia com a atendente de um supermercado sobre o valor do pote de castanhas de caju, que fora registrado diferente do que estava anunciado na prateleira. Ele, o próximo da fila, ouvia atentamente as argumentações da moça e observava a falta de vontade e a cara debochada que a atendente dirigia a reclamante. Percebendo que aquilo poderia se tornar um verdadeiro barraco, o observador retirou-se da fila e rapidamente voltou com o gerente do supermercado para resolver a situação.

Nesta hora, a moça nervosinha dos cabelos de fogo, expressão usada carinhosamente por ele nos próximos meses em que estariam juntos, estava com o rosto rubro, fazendo quase um ton sur ton com seus cabelos. A situação foi resolvida de imediato pelo gerente que pediu desculpas e cobrou o valor justo. Ao sair, ainda um pouco nervosa, a moça lançou um sorriso semi cerrado em forma de agradecimento ao cavalheiro que buscou o gerente. Quando ainda guardava suas compras no porta malas do carro sentiu uma pessoa se aproximar, virou-se e deparou com o nobre cavalheiro que lhe trazia uma sacola esquecida no caixa na hora da confusão.

Um agradecimento mais caloroso, um papo meio descontraído e logo veio o convite para um café.  Após o saboroso expresso acompanhado de uma deliciosa torta de maça com canela, trocaram números de telefone. Logo receberam mensagens carinhosas e marcaram outro encontro para horas mais tarde. Tudo se deu de forma muito rápida e em poucos dias o cupido havia acertado certeiramente o casal.

Personalidades bem distintas: ela explosiva, visceral, melodramática, ciumenta. Ele: calmo, introspecto, ponderado. Contudo, ambos muito apaixonados.

Nos primeiros encontros já faziam planos de viagens, trabalhos, passeios… Como eram independentes e moravam longe de suas respectivas famílias, nem esperaram completar o primeiro mês de intenso affair para colocarem as escovas de dentes dormindo juntas.

Algumas brigas foram ocorrendo nesta convivência tão intensa claramente provocadas pela moça dos cabelos de fogo que não conseguia esconder o ciúme, quase doentio, que tinha do nobre cavalheiro. Como se não bastasse, ela sempre questionava se ele a amava mesmo, pelo simples fato de nunca ter visto da parte dele uma ceninha qualquer de ciúmes. Ele, em sua tranquilidade quase budista, sempre respondia que a confiança era o motivo.

No segundo mês ela já se jogava em declarações e juras de amor eterno e ele percebeu o quanto seus sentimentos haviam mudado. Uma necessidade extrema de estar perto misturado ao medo de perdê-la, porém sempre ponderou a explicitação dos seus sentimentos. Justamente a três dias da comemoração dos três meses, viu uma mensagem no celular dela com os únicos dizeres: té logo, te amo, bjos. Na foto um homem bonito, aparentemente mais novo e de largo sorriso.

Aquelas cinco pequenas palavras, acompanhadas da foto do bonito homem de sorriso largo, foram suficientes para tirar o seu equilíbrio emocional. Não quis perguntar de quem, mesmo porque não era de praxe ele vasculhar o celular dela, mas não disfarçou o enorme sentimento de ciúmes que brotou. Passou o resto do dia sem conversar, disfarçando seu sentimento atrás de um livro que não saiu da mesma página por horas seguidas. Quis dormir no sofá, com a desculpa de não perder um filme que passaria.

No dia seguinte não saiu para trabalhar no horário que costumava, esperou ela sair e acabrunhou-se no sofá com uma imagem que não saía de sua cabeça: o sorriso do safado. Ao anoitecer colocou um bilhete sobre a mesa dizendo que estava com enxaqueca e pedindo que não acendesse a luz do quarto onde se alojou. Mesmo achando estranho ela obedeceu.

Ao perceber que ela já havia dormido, levantou-se pé ante pé e foi buscar o celular dela na cabeceira da cama. A mensagem anterior já havia sido apagado, péssimo sinal, mas havia uma mais recente: té amanhã, chegarei  9:00. Bjos. sds. Um misto de sentimentos tomou conta de sua cabeça. Achou que ia explodir, saiu do quarto rapidamente, foi para a varanda, respirou fundo e segurou a lágrima que ameaçou escorrer pelo rosto.

Não conseguiu dormir, andou de um lado para o outro pensando ser um verdadeiro otário. Não gostou deste pensamento e resolveu que poderia ser tudo, menos um otário. Escreveu um bilhete dizendo que teve que sair mais cedo voltaria para o almoço.

Esperou-a de espreita na esquina de casa. Doeu ao vê-la sair com um sorriso radiante, olhando para o relógio com uma expressão de ansiedade e felicidade. Foi seguindo-a até chegar próximo à rodoviária. Provavelmente o lugar de encontro com o canalha de sorriso largo, pensava ele. Esperou alguns minutos e viu que ela olhava o relógio e mexia os cabelos de forma agitada, assim como fazia sempre que estava ansiosa. De repente viu seu rosto transfigurar em uma expressão quase gozosa. Olhou na direção do olhos dela e viu o homem do sorriso largo, com os braços abertos e um buquê e flores na mão. Não quis ver mais nada, correu, fugiu, entrou desesperadamente na primeira rua que viu. Foi andando desnorteado para casa. A ira tomou conta do seu ser. Subiu as escadas como uma máquina. Entrou no apartamento e quebrou cada objeto como se fosse os dentes do maldito amante. Fez questão de tirar vinil por vinil, da coleção tão amada por ela e destruir um a um. Olhou o caos, sentou e chorou.

Ficou em um silêncio que rasgou sua alma por minutos sem fim, até ser despertado pelo barulho de uma mensagem que acabava de chegar em seu celular.

Com os olhos ainda embaçados de lágrimas, conseguiu ler as primeiras frases da mensagem que diziam: Meu amor e nobre cavalheiro, temos companhia para o almoço, acabo de pegar meu irmão na rodoviária e estou…

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