Sete contos capitais – LUXÚRIA

CONTOS CAPITAIS

Luxúria, o terceiro conto da série.

Na Wikipédia encontramos a seguinte definição: A luxúria (do latim, luxuria) ou lascívia (do latim, lascivia) é uma emoção de intenso desejo pelo corpo.

Sempre ouvi um ditado popular que penso ter muito de verdade: “Quem muito espreme, sai entre os dedos.” Tudo que tentamos ocultar, oprimir, esconder de todas as formas, um dia se escorre com grande chance de fazer sujeira.

 

Luxúria

Vivia se gabando dos seus quarenta e três anos bem vividos. Bom emprego, casa própria, carro do ano, esposa, filhos,  e acima de tudo uma moral ilibada. Presidente do Conselho Municipal da Família Tradicional em uma cidade do interior de Minas onde nasceu e vivia. Defensor da família tradicional, não deixava em paz qualquer movimento que pudesse ser uma ameaça a mesma.

Aos filhos, tentava repassar a educação seminarística e militar que teve, o que não era fácil em tempos tão diferentes. Mesmo assim, não deixava de exibir a todos o patrimônio material, ético e moral que acumulou durante os anos.

Nunca, pelo menos que se sabia, tinha dado uma escorregada. Na rua, costumava desviar seus olhos de corpos mais expostos e volumes que extrapolavam o limite do imperceptível… a alma é forte mas a carne pode não ser.

Fora convocado a trabalhar no mês de fevereiro em uma cidade litorânea, famosa por suas praia paradisíacas e principalmente por suas festas da carne abençoadas por Baco. Não fez gosto, principalmente por não poder levar a família junto.

Como era um trabalho grande e de muita responsabilidade, não poderia deixar de ir. Perderia o feriado do carnaval perto dos seus, pois não poderia se ausentar da cidade em que iria trabalhar durante todo o mês… mas “o trabalho dignifica o homem”.

Chegou a cidade paradisíaca, mas nem pode aproveitar nada da mesma. Só trabalho…muito trabalho. Com tantos afazeres só percebeu que o feriado de carnaval chegou no dia em que levou duas horas em um táxi para andar apenas cinco quilômetros. Desistiu do táxi no último quilômetro e resolveu ir andando até o hotel, em meio a multidão.

Longe de casa, sem nenhum conhecido por perto, os olhares não necessitavam ser tão cuidadosos. A libido exalava pelo caminho. Corpos expostos, volumes salientes, beijos calientes e um esfregar de partes que colocava em provação qualquer santo.

Não era costume, mas parou em uma barraquinha para tomar uma cerveja. Uma só, para relaxar e dormir depois de um dia tão cansativo. Como brinde ganhou uma dose de Tsunami, especialidade da casa e “cortesia para os engravatados”, dizia o vendedor.Relutante acabou experimentando a bebida enquanto ensaiava a caminhada para o hotel.

O nome dado à bebida não era por acaso, fez com que os quinhentos metros que o separava do hotel parecesse infinitamente maior, além de conseguiu arrasar com qualquer sentimento de pudor e moralidade que insistia em ficar de pé. Seus olhares de cuidadosos, passaram a fulminantes. Adorou ser apalpado, esfregado e cobiçado pelo caminho.

Desejou voltar a barraca para comprar mais um tsunami, o que não foi necessário, os longos e imaginários passos que deu em direção ao hotel não passaram de uma volta em torno da mesma barraca.

Depois da quarta cerveja e da segunda bebida devastadora da moral e dos bons costumes, a gravata já estava na cabeça e o pescoço cravejado de marcas de batons, compondo uma fantasia de executivo fanfarrão.

Entre piscadelas e esbarrões foi direcionado à praia, mais especificamente, às grandes pedras que encobriam da multidão grupos de pessoas que partilhavam de uma intimidade maior.

O poder do álcool não é o de mudar o pensamento das pessoas, mas de encorajá-la em seus desejos mais ocultos.

Sem ninguém que pudesse frear seus desejos mais obscuros, soltando um “sempre sonhei com isso” abafado pela hipocrisia vivida, se jogou no primeiro grupo que viu.

Homens e mulheres despidos de qualquer pudor e roupa se esfregavam freneticamente, alheios a qualquer orientação sexual que possivelmente teriam.

Ainda que receoso, se deixou levar pela volúpia do momento, envolvendo-se entre barbas, seios, suores e desejo. Se cuidando para não contrair nenhuma doença que manchasse sua reputação.

Porém existe uma coisa que nenhum preservativo pode conter, a moral perdida.

Perdeu o emprego, a mulher e o respeito dos filhos depois que um vídeo, gravado nas pedras por um voyer de plantão, espalhou-se de forma viral pela internet com o seguinte título: “Presidente do Conselho da Família Tradicional engolindo microfone em audiência pública.”

Pablo Simões

Deixar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *